explicitClick to confirm you are 18+

Sobre a pílula feminina e como ela estagnou o avanço da saúde masculina

Liddel_HenryJan 13, 2021, 2:55:42 AM
thumb_up2thumb_downmore_vert

Desde que a pílula feminina foi desenvolvida na década de 1960, os métodos contraceptivos têm sido desenvolvidos objetivando sempre as mulheres, enquanto os métodos contraceptivos masculinos ficaram estagnados por quase meio século. 

Para o homem, as alternativas contraceptivas disponíveis atualmente são: 1) preservativo, 2) coito interrompido, 3) vasectomia e talvez possa se considerar também alguns géis espermicidas. Destes, o mais acessível, reversível e eficaz é o uso de preservativo. A vasectomia é tão ou mais eficaz, mas é difícil de ser revertida e não é tão acessível. Já o coito interrompido e os géis espermicidas são um risco e acredito que não é preciso especificar o porquê neste post (milhares de outras fontes por aí podem explicar isso com detalhes). A questão que gostaria de elucidar aqui é por que o desenvolvimento de novos métodos contraceptivos para os homens foi completamente ignorado nas últimas décadas.

Em geral, cerca de um quarto do uso de contraceptivos é feito por homens, mas mesmo assim é perceptível como há poucas opções de contracepção masculina no mercado. Em 1939 um estudo realizado apresentou o primeiro indício de um contraceptivo masculino, porém as pesquisas não seguiram com muito afinco pois a sociedade estava mais propensa a querer um método exclusivamente feminino. Deste modo, o meio científico se voltou para o estudo do sistema feminino a fim de compreender como poderiam desenvolver tal método. Só na década de 1960 é que finalmente foi lançada a pílula hormonal, método utilizado até hoje pelas mulheres, apesar de pesquisas mais recentes demonstrarem que seus efeitos colaterais podem ser complexos e, às vezes, perigosos.

Uma possível pílula masculina que poderia ter nascido a partir daquele estudo de 1939 foi completamente ignorada por décadas, com o ressurgimento deste assunto apenas nos anos 1990 com a International Conference on Population and Development (ICPD) que levantou a necessidade dos homens se envolverem mais com o planejamento familiar. Durante todas essas décadas de estagnação da contracepção masculina houve uma consequência negativa que, na minha opinião, é um pouco mais grave que a falta de uma pílula masculina: o conhecimento precário sobre a saúde do homem.

Como desde a década de 1930 a pressão social era por um método contraceptivo que permitisse as mulheres não se envolverem numa gravidez indesejada, toda a pesquisa foi totalmente focada na saúde feminina, no sistema reprodutor feminino, na endocrinologia feminina, tudo focado no corpo feminino e nos seus mecanismos para que pudessem desenvolver a pílula. Mesmo após a liberação da pílula pela FDA em 1960, as pesquisas continuaram com foco na saúde feminina para que esta pílula pudesse ser aprimorada ou para que outras alternativas fossem desenvolvidas. 

Enquanto isso a área de Andrologia e Urologia masculina ficou estagnada ou deu passos muito pequenos. Estas áreas passaram a ganhar atenção e se desenvolverem mais no século XXI, especialmente nos últimos anos com as campanhas contra o câncer de próstata e outras doenças que atingem exclusivamente os homens. No entanto, é inegável que mesmo com o crescimento científico sobre a saúde masculina a sociedade, os órgãos públicos e as empresas privadas ainda injetam muito mais atenção e financiamento em estudos, campanhas e pesquisas voltadas para a saúde feminina. Prova disso é a diferença de gasto público com o Outubro Rosa e Novembro Azul, tendo este último feito com muito menos recursos que o primeiro mesmo que ambos os problemas evidenciados (câncer de mama e câncer de próstata, respectivamente) tenham números de vítimas similares.

Recentemente o meio científico voltou a dar atenção mais uma vez ao desenvolvimento de uma pílula masculina, mas depois de todos os problemas apontados na pílula feminina os homens estão receosos de aderir a um método hormonal (e com razão), portanto a ciência precisará se esforçar para encontrar uma alternativa que não cause mal a saúde masculina. E que os cientistas façam o dever de casa com primor, já que estão em débito com a saúde masculina há pelo menos 80 anos.

Referências

Ross, John; Hardee, Karen (2016). USE OF MALE METHODS OF CONTRACEPTION WORLDWIDE. Journal of Biosocial Science, (), 1–16. doi:10.1017/s0021932016000560

Yuen, Fiona; Nguyen, Brian T.; Swerdloff, Ronald S.; Wang, Christina (2020). Continuing The Search For A Hormonal Male Contraceptive. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology, (), S1521693420300304–. doi:10.1016/j.bpobgyn.2020.02.003