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Interview with Vito Ribeiro (Victor Ribeiro) is a Brazilian documentary filmmaker, producer, editor, and project manager with over 15 years of experience working across cinema, education, human rights, and social impact.

Vito Ribeiro is a Brazilian documentary filmmaker, producer, editor, and project manager with over 15 years of experience working across cinema, education, human rights, and social impact.

He graduated in film from the Escola de Cinema Darcy Ribeiro in Rio de Janeiro, where he began transforming social and political concerns into cinematic language. He served for over ten years as Associate Director of Programs at WITNESS, where he trained over 2,000 community communicators, Indigenous peoples, and human rights defenders across Brazil and Latin America to utilize audiovisual media as legal evidence and tools for social change.

He is the founder of Bombozila, a dedicated platform and network created to distribute independent human rights and social-impact documentaries beyond traditional channels. He also co-founded CineCasaDoc, an institute that screens impact documentary cinema and offers free audiovisual training for public school youth in Rio de Janeiro, and coordinates development and workflow management for the project PIPA!.

Films

  • Distopia:021 – His debut documentary, created during his studies at Darcy Ribeiro amidst major urban transformations and forced evictions in Rio de Janeiro leading up to international sporting events.
  • A Rota da Canoa – A documentary built through long-term engagement with a traditional artisanal fishing community in Niterói, centering on the restoration of a century-old canoe as a lens for Afro-Indigenous memory, ancestry, and territory rights.
  • Palavra Perdida – A film exploring memory, community communication, and reclaiming self-representation following police violence in Rio.

Links

1. O que o inspirou a se tornar documentarista e como sua formação na Escola de Cinema Darcy Ribeiro impactou sua carreira?

1. What inspired you to become a documentarian, and how did your training at the Darcy Ribeiro Film School impact your career?

Minha entrada no cinema está diretamente ligada a uma política pública de democratização do acesso à formação audiovisual. Fui bolsista na Escola de Cinema Darcy Ribeiro entre 2009 e 2011 na cidade do Rio de Janeiro em um programa ligado aos "Pontos de Cultura" (política cultural revolucionária no Brasil que teve o músico e compositor Gilberto Gil como agente), que possibilitou que comunicadores periféricos, indígenas e quilombolas estudassem cinema. Para mim, isso foi muito marcante. Eu não estava apenas entrando em uma escola de cinema; fazia parte de um processo que questionava quem historicamente tinha acesso aos meios de produzir e contar histórias. Isso ajudou a definir meu compromisso com o cinema.

Mas demorei a me reconhecer como documentarista. No início, achava que o que eu fazia era sobretudo ativismo da comunicação. Minha preocupação estava muito mais em usar a câmera para falar de desigualdade, violência, território e direitos do que em me afirmar como cineasta. Aos poucos fui entendendo que essas coisas não eram excludentes. Eu podia ser um comunicador, um ativista e, ao mesmo tempo, me reconhecer como um documentarista do campo social.

A Darcy Ribeiro foi fundamental nesse processo. Foi lá que comecei a transformar inquietações políticas e sociais em linguagem cinematográfica e realizei Distopia:021, meu primeiro documentário.

My entry into filmmaking is directly linked to a public policy for democratizing access to audiovisual training. I was a scholarship student at the Darcy Ribeiro Film School between 2009 and 2011 in Rio de Janeiro through a program connected to "Pontos de Cultura" (a revolutionary cultural policy in Brazil championed by musician and songwriter Gilberto Gil), which enabled peripheral, Indigenous, and Quilombola communicators to study film. For me, this was very defining. I wasn't just entering a film school; I was part of a process that challenged who historically had access to the means of producing and telling stories. This helped define my commitment to cinema.

However, it took me a long time to recognize myself as a documentarian. At first, I thought what I did was mostly media activism. My concern was much more with using the camera to address inequality, violence, territory, and rights than with asserting myself as a filmmaker. Gradually, I realized that these things were not mutually exclusive. I could be a communicator, an activist, and at the same time see myself as a documentarian in the social realm.

Darcy Ribeiro was fundamental in this process. It was there that I began transforming political and social concerns into cinematic language and directed Distopia:021, my first documentary.

2. Como sua experiência de mais de dez anos na WITNESS influenciou sua visão sobre cinema documental e transformação social?

2. How has your experience of more than ten years at WITNESS influenced your perspective on documentary film and social transformation?

A WITNESS aprofundou algo que já estava presente na minha trajetória: a ideia de que a imagem não pertence apenas ao campo da representação. Ela pode ser memória, evidência, denúncia, ferramenta de mobilização e instrumento de luta por direitos.

O contato direto com movimentos sociais, comunicadores comunitários, povos indígenas, familiares de vítimas da violência de Estado e defensores de territórios também transformou minha maneira de pensar a autoria. Passei a me interessar cada vez mais por processos participativos e de co-criação, nos quais as pessoas não são simplesmente personagens ou fontes de um filme, mas participam da construção da narrativa.

Com a WITNESS tive a chance de desenvolver metodologias para que movimentos sociais e comunidades possam usar o audiovisual como um elemento de prova. De sair pra filmar evidências de crimes sociais e lutar por justiça. Ao longo de 10 anos treinei mais de 2000 pessoas de todas as regiões do Brasil e de outros países da América Latina.

Isso também influencia meu cinema. Hoje me interessa menos chegar a um território com uma história previamente definida e mais criar condições para que o filme seja atravessado pelos conhecimentos, escolhas e perspectivas das pessoas que vivem aquela realidade.

WITNESS deepened something that was already present in my path: the idea that an image doesn't belong solely to the domain of representation. It can be memory, evidence, denunciation, a mobilization tool, and an instrument in the struggle for rights.

Direct contact with social movements, community communicators, Indigenous peoples, families of victims of state violence, and land defenders also reshaped my understanding of authorship. I became increasingly interested in participatory and co-creative processes where people are not simply characters or sources in a film, but active contributors to shaping the narrative.

With WITNESS, I had the opportunity to develop methodologies so social movements and communities could use audiovisual media as legal evidence—to document evidence of social crimes and fight for justice. Over 10 years, I trained more than 2,000 people across all regions of Brazil and other Latin American countries.

This also influences my filmmaking. Today, I am less interested in arriving in a community with a predetermined story, and more focused on creating conditions for the film to be shaped by the knowledge, choices, and perspectives of the people living that reality.

3. Qual foi a motivação para criar a Bombozila e quais oportunidades você buscava gerar para cineastas independentes?

3. What was the motivation behind founding Bombozila, and what opportunities were you seeking to create for independent filmmakers?

A Bombozila surgiu de uma experiência coletiva. Durante o período dos megaeventos esportivos internacionais no Rio, havia muitos comunicadores e realizadores independentes documentando remoções, militarização, criminalização de protestos e outras transformações da cidade. Existia uma produção muito potente, mas com poucos espaços próprios de circulação.

Percebemos que não bastava democratizar a produção: era preciso também disputar a distribuição. A Bombozila nasceu dessa necessidade de criar um espaço para que documentários independentes ligados a direitos humanos e questões sociais encontrassem público e circulassem para além dos circuitos tradicionais.

Também havia uma dimensão de rede. Queríamos aproximar realizadores e experiências de diferentes territórios, especialmente na América Latina, entendendo a circulação não apenas como exibição de filmes, mas como possibilidade de troca e construção coletiva.

Bombozila grew out of a collective experience. During the major international sporting events in Rio, many independent communicators and filmmakers were documenting forced evictions, militarization, the criminalization of protests, and other urban transformations. There was an incredibly powerful body of work being produced, but very few dedicated spaces for its distribution.

We realized that democratizing production wasn't enough; we also needed to challenge distribution. Bombozila was born out of the need to create a dedicated space where independent documentaries focused on human rights and social issues could find audiences and circulate beyond traditional channels.

There was also a networking element. We wanted to connect filmmakers and experiences across different territories, especially within Latin America, treating distribution not just as film screenings, but as an opportunity for dialogue and collective building.

4. Como suas atuações em cinema, educação, gestão e impacto social se complementam na prática?

4. How do your work in cinema, education, management, and social impact complement each other in practice?

Para mim, elas fazem parte de um mesmo percurso. Antes do cinema, trabalhei com rádio e comunicação comunitária. Depois vieram a formação cinematográfica, a educação, o trabalho com direitos humanos, a gestão de projetos e equipes. Uma experiência foi transformando a outra.

A educação, principalmente, mudou minha maneira de fazer cinema. Trabalhar com metodologias participativas me ensinou que conhecimento não é algo que simplesmente transferimos para alguém. Ele é construído na relação. Acho que o documentário pode funcionar da mesma maneira.

Por isso me interessam tanto processos de co-criação. O diretor continua tendo responsabilidade sobre escolhas e linguagem, mas o filme pode ser construído a partir de uma relação menos vertical com as pessoas e comunidades envolvidas. A gestão entra justamente para criar condições para que esses processos coletivos sejam possíveis e sustentáveis.

To me, they are all part of the same journey. Before filmmaking, I worked in radio and community communication. Later came formal film training, education, human rights work, and project and team management. Each experience shaped the next.

Education, in particular, fundamentally changed how I approach filmmaking. Working with participatory methodologies taught me that knowledge isn't something we simply transfer to someone else; it is built through relationships. I believe documentary filmmaking can function the exact same way.

This is why co-creative processes interest me so much. The director still holds responsibility for aesthetic and narrative choices, but the film can be crafted through a less hierarchical relationship with the individuals and communities involved. Management then steps in to build the necessary conditions to make these collective processes feasible and sustainable.

5. O que você poderia compartilhar sobre os processos de A Rota da Canoa, Palavra Perdida e Distopia:021?

5. What can you share about the processes behind A Rota da Canoa, Palavra Perdida, and Distopia:021?

São três filmes de momentos muito diferentes da minha trajetória, mas hoje consigo perceber um fio que conecta todos eles: território, memória e o direito das pessoas de participarem da construção das narrativas sobre suas próprias vidas.

Distopia:021 nasceu durante minha formação na Darcy Ribeiro, em um momento de grandes transformações urbanas no Rio. A cidade estava sendo preparada para os megaeventos esportivos internacionais enquanto comunidades enfrentavam remoções e outras violações. Naquele momento, eu ainda me via muito mais como um ativista da comunicação do que como documentarista.

A Rota da Canoa representa outro momento. É um filme construído a partir de uma relação muito mais longa com uma comunidade de pescadores artesanais de Niterói. A recuperação de uma canoa centenária se transforma em um caminho para falar de memória afro-indígena, ancestralidade, transmissão de conhecimento e direito ao território. O processo de escuta e a participação da comunidade foram fundamentais para definir o próprio caminho do filme.

Já Palavra Perdida nasce da relação com Raull Santiago e de uma história profundamente dolorosa: o assassinato de Eduardo de Jesus pela polícia. Mas não queria fazer apenas um filme sobre violência. Me interessava pensar também sobre memória, comunicação e sobre como pessoas de territórios historicamente representados por outros passam a produzir e disputar suas próprias imagens.

De alguma maneira, esses três filmes também contam minha própria transformação como realizador.

These three films represent very different moments in my career, but today I can trace a thread connecting all of them: territory, memory, and people's right to participate in building narratives about their own lives.

Distopia:021 was created during my studies at Darcy Ribeiro, amidst major urban transformations in Rio. The city was preparing for major international sporting events while local communities faced forced evictions and other rights violations. At that time, I still saw myself much more as a media activist than a documentary filmmaker.

A Rota da Canoa represents a different chapter. It was built through a long-term relationship with a community of traditional artisanal fishers in Niterói. The restoration of a century-old canoe becomes a vessel to explore Afro-Indigenous memory, ancestry, knowledge transmission, and land rights. Deep listening and community participation were crucial in shaping the film's trajectory.

Meanwhile, Palavra Perdida grew out of my relationship with Raull Santiago and a deeply painful story: the killing of Eduardo de Jesus by police officers. But I didn't want to make simply a film about violence. I was interested in reflecting on memory, communication, and how individuals from territories historically portrayed by outsiders begin producing and reclaiming their own imagery.

In a way, these three films also tell the story of my own evolution as a filmmaker.

6. Como você enxerga a evolução do documentário com o avanço das plataformas digitais e o acesso direto ao público?

6. How do you see the evolution of documentary filmmaking with the rise of digital platforms and direct audience access?

A transformação foi enorme. Quando comecei, o acesso aos equipamentos, à edição e principalmente à distribuição era muito mais restrito. Hoje uma pessoa pode filmar, editar e publicar utilizando ferramentas relativamente acessíveis.

Isso tem uma dimensão muito importante para o documentário participativo, porque comunidades que historicamente eram apenas filmadas passaram também a produzir suas próprias imagens e narrativas. Para mim, essa talvez seja uma das mudanças mais interessantes: não é somente uma democratização das ferramentas, mas uma disputa sobre quem tem o direito de representar quem.

Ao mesmo tempo, o acesso às plataformas não significa necessariamente acesso ao público. Hoje temos uma enorme concentração de poder nos algoritmos e nas plataformas digitais. Então a questão deixou de ser apenas “quem consegue produzir?” e passou também a ser “quem consegue circular, ser encontrado e permanecer visível?”.

The transformation has been huge. When I started out, access to equipment, editing suites, and especially distribution was far more restricted. Today, anyone can shoot, edit, and publish using relatively accessible tools.

This carries immense significance for participatory documentary work, as communities that were historically merely filmed are now creating their own images and narratives. To me, that is perhaps one of the most exciting shifts: it's not just about democratizing technology, but about asserting who has the right to represent whom.

At the same time, access to digital platforms doesn't automatically guarantee access to an audience. Today there is a massive concentration of power within algorithms and digital platforms. So the main question is no longer just "who gets to produce?", but also "who gets to circulate, be discovered, and remain visible?"

7. Que conselho você daria para cineastas que buscam alinhar impacto social e liberdade artística?

7. What advice would you give to filmmakers trying to balance social impact with artistic freedom?

Eu começaria dizendo que não é preciso escolher entre uma coisa e outra. Eu mesmo demorei a entender isso. Durante muito tempo achei que, por estar fazendo comunicação ligada a direitos humanos e movimentos sociais, talvez aquilo não fosse exatamente documentário. Depois percebi que esse compromisso social não diminuía minha identidade como realizador — ele ajudava a definir-la.

Também acho importante não transformar o impacto social em uma fórmula. Um filme não precisa se tornar uma peça de campanha para ter impacto. Às vezes, sua potência política está justamente na linguagem, na sensibilidade e na capacidade de produzir uma experiência que faça alguém olhar para uma realidade de outra maneira.

E, principalmente quando trabalhamos com comunidades, eu diria: escute muito. Questione a ideia de que o diretor precisa chegar sabendo qual é a história. Processos participativos e de co-criação podem transformar não apenas o filme, mas o próprio realizador. Para mim, liberdade artística também é estar aberto para que o encontro mude aquilo que você imaginava fazer.

Recomendo que visitem o site https://cinecasadoc.com - Instituto que fundei junto com parceiros do cinema independente, onde exibimos cinema documental de impacto para nossa comunidade e oferecemos cursos gratuitos para jovens de escolas públicas do Rio de Janeiro poderem se iniciar profissionalmente no audiovisual.

I would start by saying you don't have to choose between the two. It took me a long time to realize this myself. For a while, I thought that because I was doing communication tied to human rights and social movements, it might not count as "real" documentary filmmaking. Later, I understood that this social commitment didn't diminish my identity as a filmmaker—it helped define it.

I also think it's crucial not to turn social impact into a formula. A film doesn't need to function as a campaign piece to have an impact. Sometimes, its political power lies precisely in its cinematic language, sensitivity, and ability to create an experience that allows someone to view a reality through a different lens.

And especially when working with communities, I would say: listen deeply. Challenge the notion that the director must arrive already knowing the full story. Participatory and co-creative processes can transform not just the film, but the filmmaker as well. To me, artistic freedom also means remaining open to letting the encounter reshape what you originally envisioned.

I encourage everyone to visit https://cinecasadoc.com — an institute I co-founded with partners in independent cinema where we screen impactful documentary films for our community and offer free courses for public school youth in Rio de Janeiro to start their professional path in the audiovisual industry.

https://www.instagram.com/victorfilms/ 

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