F. Monteiro Júnior é um cineasta brasileiro nascido no Piauí, atualmente em São Paulo, reconhecido
por sua linguagem cinematográfica apurada e por superar as próprias limitações de discinesia
motora, em virtude de uma paralisia cerebral discinética (PCD), para refletir sobre, ensinar e fazer
cinema.
Aos 15 anos, estreou na literatura com o romance policial As Sete Vidas do Gato (1998), publicado
por meio da Lei A. Tito Filho de incentivo à cultura local. A obra foi seguida por A Obscuridade
Humana (1999), lançada pela Editora da Universidade Federal do Piauí (EDUFPI), e O Confidente
(2003), que lhe rendeu o Prêmio Fontes Ibiapina de Romance, da Fundação Estadual de Cultura e
Esporte do Piauí (FUNDEPI), em 2001.
Sua incursão no audiovisual começou em 2004, com a escrita e direção do média-metragem No
Meio do Caminho, produzido em parceria com amigos. Desde então, assinou obras como o
curta-metragem de suspense Insone (2005), premiado como Melhor Filme no Piauí Festvideo; o
docudrama Dona Maria (2010), um olhar sensível sobre a solidão e o abandono na velhice; e o
longa-metragem Qualquer Hora Dessas (2012), vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Atriz
no Encontro Nacional de Cinema dos Sertões. Em 2017, dirigiu o curta-metragem documentário
Estado da Arte [Adriano Abreu], que recebeu prêmios de roteiro e fotografia.
Já em 2023, lançou Estalos, contemplado pelo primeiro edital de cinema do Estado, promovido pela
Secretaria de Cultura do Piauí (Secult-PI). O filme conquistou amplo reconhecimento, somando 14
prêmios em festivais nacionais e internacionais. Recentemente, finalizou Georgia, curta de ficção que
entrelaça ruminação mental com as bordas do processo ator/atuação, e está concluindo a
pós-produção de Fractal, rodado em São Paulo.
Monteiro Júnior também é graduado em Psicologia e Jornalismo, possui Mestrado em Literatura e
atuou como crítico de cinema entre 1999 e 2014 para jornais impressos e online. Desde 2006, ministra
oficinas de cinema, contribuindo para a formação de novos talentos na área.
emails: [email protected] · [email protected]
insta: https://www.instagram.com/fmonteirojr1938/
whatsapps: (86) 99927-4057 · (11) 97993-7786
[usinadeletras.com][imdb][imdb][imdb][imdb]
https://www.imdb.com/es/title/tt26689741/
produtor:
. Melhor Vídeo Piauiense, pelo curta de ficção INSONE, no XIII Festvídeo de Teresina, 2005
. Melhor Filme de Longa Nacional pelo Júri Popular e Melhor Atriz de LongaNacional [Jarleni Silva], pelo longa
de ficção QUALQUERHORADESSAS, no 7° FestivalNacional de Cinema dos Sertões, 2012
. Melhor Fotografia de Curta Metragem Documentário [Fernando Gonzaga e Eduardo Crispim], por ESTADODA
ARTE: ADRIANOABREU, no 12° Cinema dos Sertões, 2017
. Melhor curta de ficção, ator [Felipe Zahir], trilha sonora [José Quaresma], maquiagem [João Aranha e Polyara
Lessa], por ESTALOS, no 18° FestivalNacional de Cinema dos Sertões, 2024
. Melhor Curta-metragem Competitiva Nordeste pelo Júri Oficial, por ESTALOS, na 5° Mostra de Cinema
Contemporâneo doNordeste - CompetitivaNordeste de Curta-metragem, 2024
. Prêmio Aurora de Melhor Filme, Prêmio Sussurro nas Trevas de Melhor Desenho de som [Iago Guimarães] e
Prêmio Corpo em Catarse de Melhor Uso do Corpo [Felipe Zahir], por ESTALOS, no 1° Aurora Festival de Cinema
Fantástico e deHorror, 2024
. Melhor Performance em Cinema Brasileiro de Curta-metragem [Felipe Zahir], por ESTALOS, no All That Moves
International Film Festival, 2025
. Melhor Filme e Interpretação [Marcel Julian], por GEORGIA, no 12° FIACINE - Festìval Ibero-americano de
Cinema, 2025
. Melhor Ator de Curta Nacional [Marcel Julian], por GEORGIA, no 18° FestivalNacional de Cinema dos Sertões,
2025
como roteirista:
. Melhor Roteiro de LongaNacional, pelo longa de ficção QUALQUERHORADESSAS, no 7° FestivalNacional de
Cinema dos Sertões, 2012
. Melhor Roteiro de Curta Metragem Documentário, por ESTADO DA ARTE: ADRIANO ABREU, no 12° Cinema
dos Sertões, 2017
. Melhor roteiro de curta de ficção, por ESTALOS, no 18° FestivalNacional de Cinema dos Sertões, 2024
. Melhor roteiro, por GEORGIA, no 12° FIACINE - Festìval Ibero-americano de Cinema, 2025
como diretor:
. Melhor direção de curta de ficção, por ESTALOS, no 18° FestivalNacional de Cinema dos Sertões, 2024
. Melhor direção, por ESTALOS, no 11° FIACINE - Festìval Ibero-americano de Cinema, 2024
. Melhor direção, por GEORGIA, no 12° FIACINE - Festìval Ibero-americano de Cinema, 2025
como montador:
. Melhor montagem de curta de ficção, junto com Eduardo Crispim, por ESTALOS, no 18° Festival Nacional de
Cinema dos Sertões, 2024
Qual foi a faísca ou imagem original que inspirou a criação de Estalos?
What was the initial spark or original image that inspired the creation of Estalos?
Acho que a faísca para a criação teve várias origens. Inicialmente, eu andava questionando bastante a força do diálogo no roteiro. Sentia que o diálogo, em geral, puxava a narrativa para baixo quando colocávamos frases óbvias ou estúpidas na boca dos personagens. Eu queria muito fazer um filme que não dependesse das falas. Um dia, enquanto eu trabalhava como assessor de imprensa na Fundação Monsenhor Chaves, um colega meu começou a estalar o corpo. Ele estalava o pescoço, as mãos, os dedos, o queixo e até o nariz. Eu tive que parar e perguntar sobre aquilo, e ele realmente estalava o nariz. A partir disso, começamos a conversar sobre a criação de um personagem com essa característica. Achei tudo fascinante, muito curioso e incômodo. E, para mim, uma faísca criativa precisa me incomodar.. Juntei essas duas questões: a vontade de fazer um curta sem diálogos e a figura desse colega estalando na minha frente. Criamos juntos um argumento, levei a ideia para casa e, durante uma viagem para o litoral, escrevi o roteiro. A primeira versão se chamava “O Homem que Estalava” [brincadeira com o título de um filme dos irmãos Coen]. Quando mostrei o texto para ele, o choque foi imediato, pois ele esperava que fosse uma comédia. Eu respondi que não havia como um personagem desse virar comédia; precisava ser um drama social, existencialista e pesado. Foi dessas duas faíscas que a história nasceu.
I think the spark for the creation had several origins. Initially, I was questioning the power of dialogue in the script quite a bit. I felt that dialogue, in general, pulled the narrative down when we put obvious or stupid lines in the characters' mouths. I really wanted to make a film that didn't rely on speech. One day, while working as a press officer at the Monsenhor Chaves Foundation, a colleague of mine started cracking his body. He cracked his neck, hands, fingers, chin, and even his nose. I had to stop and ask about it, and he really did crack his nose. From that point on, we started talking about creating a character with that trait. I found it all fascinating, very curious, and uncomfortable. And for me, a creative spark needs to bother me. I combined these two issues: the desire to make a short film without dialogue and the image of that colleague cracking in front of me. We created an outline together, I took the idea home, and during a trip to the coast, I wrote the script. The first version was called “The Man Who Cracked” [a play on the title of a Coen brothers film]. When I showed him the text, the shock was immediate, as he expected it to be a comedy. I answered that there was no way a character like that could turn into a comedy; it needed to be a social, existentialist, and heavy drama. It was from these two sparks that the story was born.
“Estalos" sugere ruídos repentinos ou percepções instantâneas—como esse motivo temático molda o ritmo narrativo e os relacionamentos dos personagens em seu filme?
“Estalos” suggests sudden noises or instant insights—how does this thematic motif shape the narrative rhythm and character relationships in your film?
Justamente por não termos diálogos, eu precisava que o som fosse mais do que um mero motivo temático: ele tinha que ser o motor da narrativa. Tudo foi pensado para que os estalos empurrassem a história e formatassem a linguagem que eu estava buscando. Eu queria que o curta inteiro estalasse. Quando se pensa em um filme sem diálogos, movido pelo som diegético ou extradiegético, toda a configuração da obra gira em torno disso. Cada estalo tinha uma função, uma personalidade e uma potência dramática. Isso construiu a narrativa de maneira que toda a montagem foi feita com base neles. Essa foi minha busca enquanto diretor, roteirista e montador; este foi, inclusive, o primeiro filme cuja primeira versão eu montei sozinho. A segunda camada é a dos personagens, focando em como os estalos do protagonista o isolam e provocam sua solidão, refletindo uma história de autoaceitação e preconceito. Quando ele está andando na rua, os estalos incomodam, afastam as pessoas e o tornam alvo de bullying. Mas, quando ele atua como estátua humana e ressignifica esses sons em prol da arte, temos outra reação do público. Ocorre um espanto genuíno de admiração, aquele choque de quando vemos uma obra de arte sendo feita e exibida diante de nós.
Precisely because we don't have dialogue, I needed the sound to be more than a mere thematic motif: it had to be the engine of the narrative. Everything was designed so that the cracks and pops pushed the story forward and shaped the visual and auditory language I was seeking. I wanted the entire short film to crackle. When you think of a film without dialogue, driven by diegetic or non-diegetic sound, the entire setup of the work revolves around that. Each crack had a function, a personality, and a dramatic power. This constructed the narrative in such a way that the entire editing was done based on them. That was my quest as director, screenwriter, and editor; this was even the first film whose initial version I edited alone. The second layer is that of the characters, focusing on how the protagonist's cracking sounds isolate him and cause his loneliness, reflecting a story of self-acceptance and prejudice. When he walks down the street, the cracking bothers people, pushes them away, and makes him a target of bullying. But when he performs as a living statue and recontextualizes these sounds in the name of art, we get a different reaction from the audience. There is a genuine wonder of admiration, that shock when we see a work of art being made and displayed right before us.
Vencer o prêmio de Melhor Curta de Ficção é um grande marco. Quais desafios únicos sua equipe superou durante a produção?
Winning the Best Narrative Short Film award is a major milestone. What unique challenges did your team overcome during production?
O *Estalos* teve uma carreira nos festivais de três anos e, nesse tempo, o curta conseguiu acumular 15 prêmios. Isso é um feito na produção piauiense, pois é o primeiro filme que conquista essa quantidade de prêmios e consegue esse reconhecimento de furar um pouco a bolha. Eu acho que o mais importante dessas premiações, além do reconhecimento pelo trabalho, pela obra em si e por tudo que a equipe dedicou a esse filme, seja na frente ou por trás da câmera, é justamente chegar até as pessoas. É fazer o filme ser visto e fazer o cinema piauiense ser ouvido, escutado, falado e comentado. Esse é o grande mérito das premiações: a gente conseguir jogar luz numa produção que pouca gente conhece. Acredito muito que o *Estalos* ajudou a levar o nome do cinema piauiense para cantos onde ele nunca havia chegado, e isso me deixa muito feliz. Tudo isso é obra de uma equipe que me ajudou bastante, que me deu ideias, que entregou um bom trabalho e que me proporcionou boas discussões e bons obstáculos para superarmos. A gente fica feliz, tanto eu quanto toda a produção, que o filme tenha conseguido atingir essa marca e chegado a muito mais pessoas do que era previsto a princípio.
Estalos had a three-year festival run, and during that time, the short managed to accumulate 15 awards. That is an achievement for cinema in Piauí, as it is the first film to win this many awards and gain the recognition to break out of the local bubble a bit. I think the most important thing about these awards, besides the recognition of the work, the film itself, and everything the crew dedicated to it—both in front of and behind the camera—is precisely reaching people. It's making the film seen and making cinema from Piauí heard, listened to, talked about, and commented on. That is the great merit of awards: being able to shine a light on a production that few people know about. I strongly believe that Estalos helped take the name of Piauí cinema to places it had never reached before, and that makes me very happy. All of this is the work of a team that helped me a lot, gave me ideas, delivered great work, and provided good discussions and obstacles for us to overcome. Both I and the entire production crew are happy that the film managed to hit this mark and reach far more people than was initially expected.
Como foi o seu trabalho com os atores principais para capturar as sutis mudanças emocionais exigidas por esta história?
How was your work with the lead actors in capturing the subtle emotional shifts demanded by this story?
Acho que o mais interessante do trabalho com os atores no curta foi a inversão de papéis. Explico: o Felipe não era ator, ele era dançarino, das danças urbanas; enquanto a Serena não era bailarina, ela era atriz. Então, quando eu inverto esses papéis e coloco um dançarino para atuar e uma atriz para dançar, você precisa ter todo um jogo de cintura diferente do comum, o que foi muito estimulante como diretor. Trabalhar o corpo desses atores de uma maneira com a qual eles não estavam acostumados, trabalhar o mínimo, criar um filme que fosse minimalista nas emoções, só que de uma maneira extremamente visceral. Acho que o Felipe entregou toda essa urgência e essa angústia corporal que o personagem dele traz, o que faz um contraponto muito marcado com a leveza, a delicadeza e a sutileza da performance da Serena. O contraponto entre esse corpo pesado, carregado e transtornado e a leveza e a delicadeza da contraparte (que no caso é a bailarina) é o jogo que move todo o subtexto do curta. É o que move tudo o que está por trás das imagens, tudo aquilo que não é dito pelas caracterizações, na maneira como a gente conduz essas performances diante do quadro.
I think the most interesting part of working with the actors on the short was the swapping of roles. Let me explain: Felipe was not an actor; he was an urban dancer, while Serena was not a dancer; she was an actress. So, when I invert these roles and put a dancer to act and an actress to dance, you have to be very adaptable in a non-traditional way, which was very stimulating as a director. Working with these actors' bodies in a way they weren't used to, working with minimal expression, creating a film that was minimalist in emotion, yet in an extremely visceral way. I think Felipe delivered all that urgency and physical anguish that his character carries, which forms a stark contrast to the lightness, delicacy, and subtlety of Serena's performance. The contrast between this heavy, burdened, and troubled body and the lightness and delicacy of his counterpart (in this case, the dancer) is the interplay that drives the whole subtext of the short. It's what moves everything behind the images, everything left unsaid by characterization, in how we guide these performances in front of the camera.
Visualmente, quais escolhas estilísticas ou linguagem de câmera fundamentais você utilizou para intensificar a tensão ou a intimidade?
Visually, what stylistic choices or core camera language did you use to heighten tension or intimacy?
*Estalos* nunca teve um roteiro literário propriamente dito. Eu pulei essa etapa, deliberadamente, quando fui escrever, parti direto para a decupagem. Escrevi *Estalos* a partir da decupagem: eu visualizava cada enquadramento, o que ele mostrava, o que queria dizer dentro daquele contexto e já assinalava essa sequência. Isso me possibilitou, desde cedo, desde o papel, ver o filme, ver como ele poderia ficar e perceber como cada quadro dizia ou não algo, movia ou travava a narrativa. De novo, sem a necessidade de recorrer a diálogos expositivos. Os poucos que tem foram improvisados no moment da filmagem. Foi muito sobre ter uma escrita visual, uma decupagem textual forte desde o começo e pensar nisso como linguagem, em como eu queria prender esse personagem dentro do quadro. Se você prestar atenção, quando estamos com o protagonista, o quadro não se move: ele é duro, estático, rígido. Quando a bailarina entra em cena, o quadro se movimenta, torna-se leve de uma maneira até estranha. É nesse embate, nessa dialética do quadro parado com o quadro em movimento, que toda a intenção da linguagem do curta é construída. Pouco a pouco, levamos o protagonista a tentar se livrar desse quadro que o prende, dessa imagem estática que o aprisiona. Tudo corre nessa direção. Quando falamos de tensão e de intimidade, a diferença entre as duas é muito tênue. O tempo todo os personagens estão muito perto da câmera. Existe intimidade ali, mas é uma intimidade tensionada, dura, que confere um peso existencial a cada close, a cada detalhe, a cada plano aberto, a cada plano de estabelecimento e a cada movimento que é possível dar dentro da linguagem que a gente optou.
Estalos never had a traditional literary script. I deliberately skipped that step when writing and went straight to shot breakdown. I wrote Estalos through shot listing: I visualized each framing, what it showed, what it meant in that context, and noted that sequence down. This enabled me, from early on, right on the page, to see the film, see how it could look, and perceive how each frame said or didn't say something, moved or stalled the narrative. Again, without the need to resort to expository dialogue. The few lines there are were improvised at the time of shooting. It was very much about having visual writing, strong textual shot breakdown from the beginning, and thinking of that as language—how I wanted to trap this character inside the frame. If you pay attention, when we are with the protagonist, the frame doesn't move: it is harsh, static, rigid. When the dancer enters the scene, the frame moves, becoming light in an almost strange way. It is in this struggle, in this dialectic between the still frame and the moving frame, that the entire intended language of the short is built. Bit by bit, we lead the protagonist to try to free himself from this frame trapping him, from this static image imprisoning him. Everything moves in that direction. When we talk about tension and intimacy, the line between them is very thin. All the time, the characters are very close to the camera. Intimacy is there, but it is a tense, hard intimacy that imparts an existential weight to every close-up, every detail, every wide shot, every establishing shot, and every camera movement allowed within the language we chose.
Qual papel o design de som e a paisagem sonora desempenham na transmissão das camadas ocultas de Estalos?
What role do sound design and the soundscape play in conveying the hidden layers of Estalos?
O sound design do curta provavelmente foi a parte mais demorada de todo o processo. A gente fez com o Iago Guimarães, no estúdio dele, e demorou meses para que a gente produzisse cada ruído, cada estalo, cada efeito sonoro, cada ambiência sonora. Praticamente 80% do som direto do filme precisou ser reconstruído em estúdio para que a gente tivesse o controle do ponto de vista do personagem. Lembrando estamos vendo a realidade através dos olhos do protagonista, então o som também vem através dos ouvidos dele. Tudo isso foi pensado, deliberado e planejado para ter essa provocação subjetiva. E eu queria que cada estalo tivesse uma personalidade, que cada ruído fosse mesmo um elemento narrativo. Que tudo ali em volta dele, não as articulações do próprio corpo mas também a cama, o portão, a noite, os estalos do dia a dia, as pessoas na rua, o motor do carro… que tudo isso contasse uma história. Toda a ambiência sonora do curta estivesse a serviço da dramaturgia do personagem. Foi muito legal poder trabalhar isso detalhe por detalhe: pensar, repensar, construir, reconstruir, usar diferentes técnicas para compor os estalos, fazer esses estalos levarem a gente para a trilha sonora e vice-versa. Toda essa embalagem sonora, que é importantíssima para experimentar o filme, foi pensada e imaginada junto com o Iago, com o Quaresma (que compôs a trilha), com a produção maravilhosa da Regina França e com as pessoas que estavam ali tentando dar o máximo para parir esse curta da maneira como a gente realmente queria que ele fosse parido. Mesmo que demandasse tempo demais para um curta-metragem.
The short's sound design was probably the most time-consuming part of the whole process. We worked on it with Iago Guimarães in his studio, taking months to produce every noise, every crack, every sound effect, every ambient track. Virtually 80% of the location audio had to be reconstructed in the studio so we could control the character's perspective. Mind you, we are seeing reality through the protagonist's eyes, so sound also comes through his ears. All of this was designed, deliberate, and planned to create this subjective experience. I wanted every crack to have a personality, every noise to be a true narrative element—not just his body joints, but also the bed, the gate, the night, everyday pops and cracks, people in the street, the car engine... so that all of it told a story. The entire soundscape of the short served the character's drama. It was really cool to work on this detail by detail: thinking, rethinking, building, rebuilding, using different techniques to compose the cracks, having those cracks lead us into the soundtrack and vice versa. This whole sound package, crucial to experiencing the film, was conceived together with Iago, Quaresma (who composed the score), Regina França's wonderful production team, and everyone who gave their all to bring this short into the world exactly how we wanted it to be born. Even if it took way too long for a short film.
Como criador independente na Doroteu Filmes, como você navega o equilíbrio entre a visão artística e as limitações práticas?
As an independent creator at Doroteu Filmes, how do you navigate the balance between artistic vision and practical constraints?
Eu não sou muito fã do termo "independente", sobretudo quando a gente fala de cinema. Porque a maneira como a gente usa esse termo no Brasil fica parecendo uma coisa menor. Eu acho que todo mundo produz cinema, com muito ou pouco orçamento. E você precisa se adaptar ao orçamento que você tem. Tudo vai girar em torno de como você consegue gerir de maneira criativa esse orçamento, para que o filme não fique limitado a isso, e sim ganhe enquanto linguagem. É sempre um embate entre o que a gente quer fazer e o que a gente pode fazer, mas acho que essa é a diversão da coisa. Isso estimula ainda mais a equipe a ter ideias, a vir com propostas originais e pensamentos fora da caixa. A coisa de não ter todo o recurso do mundo, não ter todo o tempo do mundo ou não ter tudo ali de maneira prática envolve um raciocínio lógico de resolução de problemas que é muito excitante. Acho que o grande trabalho do diretor é esse: resolver problemas em prol da sua visão criativa, em prol do que você está querendo. Esse embate fica impresso no resultado final, para o bem e para o mal. Fica ali como um registro de como o filme aconteceu e de como ele vai se servir ao longo da sua jornada póstuma.
I'm not a big fan of the term "independent," especially when we talk about filmmaking. The way we use that term in Brazil makes it sound like something lesser. I think everyone makes cinema, whether with a large or small budget. And you need to adapt to the budget you have. Everything revolves around how creatively you can manage that budget so the film isn't limited by it, but rather gains in artistic expression. It's always a clash between what we want to do and what we can do, but I think that's where the fun lies. It stimulates the crew even more to generate ideas, come up with original proposals, and think outside the box. Not having all the resources or time in the world, or not having everything readily available, involves a logical problem-solving process that is very exciting. I think a director's main job is just that: solving problems in service of your creative vision and what you're striving for. That struggle remains imprinted on the final result, for better or worse. It stands as a record of how the film came together and how it will serve its audience throughout its post-release journey.
O que você espera que o público global reflita após assistir a Estalos no Dedallus Play?
What do you hope global audiences reflect on after watching Estalos on Dedallus Play?
Eu posso até ter soar pretensioso, mas adoraria que o público global que descobrisse “Estalos” pudesse perceber que existe uma produção sendo feita de maneira consciente, mesmo em um lugar obscuro, num lugar longínquo como o estado do Piauí, no Brasil. E que as pessoas pudessem descobrir o que a gente tem feito aqui. Não só o meu trabalho. Tem muita coisa boa sendo produzida por estas bandas, produções que pensam e exercitam a linguagem, que tentam romper barreiras, propor ideias, dialogar para além do que está sendo mostrado. Queria que as pessoas descobrissem que existe, sim, cinema sendo feito no Piauí.
I might sound pretentious, but I would love for global audiences discovering “Estalos” to realize that conscious film production is happening even in an obscure, far-off place like the state of Piauí in Brazil. And for people to discover what we've been creating here—not just my work, but a lot of great stuff being produced in these parts: works that explore visual language, break barriers, propose ideas, and engage in dialogue beyond what is shown on screen. I want people to discover that cinema is indeed being made in Piauí.
https://endertalon.blogspot.com/2024/12/interviews-with-clinton-r.html